PROGRAMA 2
PARTE 1
A meia-noite em Buenos Aires e a voz emprestada
Aviso rápido antes de eu ir fundo. Nem todo texto daqui vai ser assim, cheio de ferramenta e “camada”. Tem dia que eu só vou contar a história da música, a lembrança que ela puxou e pronto. Mas essa aqui eu quero escrever com calma, porque foi uma daquelas escutas que viram um antes e um depois. Peço que, se não leu o Programa 1, leia. Vai facilitar a missão aqui.
Também preciso tirar um peso do caminho. Quando um amante diz “ninguém vai te amar como eu”, isso pode virar uma forma elegante de controle, porque num romance saudável existe uma expectativa de autonomia e, em algum nível, de paridade. Mesmo eventual forma de ascendência ou prioridade na relação deve ser fruto da vontade. Só que essa mesma frase muda de cor quando a gente desloca o vínculo para “pai e filho”. Ali a assimetria não é falha moral, é estrutura do cuidado. Pais avisam, às vezes até de um jeito meio bruto, que “o mundo não vai te segurar como eu seguro”, e isso pode ser proteção, não posse. E quase todo mundo entende melhor os próprios pais depois que vira pai justamente por isso: você aprende por dentro a diferença entre amor que ampara e amor que exige.
Dito isto, vamos lá.
Eu ouvi “You’ll Never Find Another Love Like Mine” numa fase em que a vida parecia grande demais para o corpo que eu tinha. Doutorado em Buenos Aires, apartamento dividido, dois amigos, e o pai de um deles convivendo com a gente como quem já tinha atravessado o suficiente para não confundir afeto com ansiedade. Eu lembro de contar para ele, meio cru, uma coisa que eu ainda acho verdadeira: muitas vezes a obra do artista passa por cima da intenção do artista e acerta um lugar que ele próprio talvez não soubesse nomear. Ele não riu, não tentou me colocar no eixo. Ele só ficou ali. E aquela presença, sem querer, me emprestou maturidade.
A letra da canção é direta e repetitiva, como se precisasse garantir que a mensagem não escape. Ela promete ternura e cuidado, insiste que esse amor é raro e, no meio, planta a profecia, quase uma ameaça da falta. Uma frase só, o próprio título, já resume a estrutura emocional inteira: “You’ll never find another love like mine”. E o verso que me pegou no nervo foi aquele cenário quase teatral de saudade, “late in the midnight hour”, como se a ausência tivesse hora marcada para doer.
Eu escutava muito uma versão mais polida e sensual, e nela tudo soava como romance, pele, jogo de sedução. Depois fui apresentado a outras gravações, com outra textura, outro peso, outro “ar”, e o texto pareceu encostar em algo que eu não estava esperando. O curioso é que eu não escolhi uma versão e rejeitei a outra. Eu juntei as duas dentro de mim. E foi só nessa colisão que eu “vi” Deus falando comigo. Não como se a letra tivesse virado oração por truque, mas como se o choque entre eros e cuidado, entre desejo e amparo, abrisse uma fenda onde eu pude ouvir uma voz que não era só minha.
Só que eu me recuso a fechar isso cedo demais, porque a honestidade mora na dúvida. Talvez tenha sido Deus. Talvez tenha sido a maturidade emprestada daquele homem mais velho no apartamento, reeducando meu ouvido. E talvez Deus tenha falado justamente por essa maturidade concreta, humana, doméstica, porque eu ainda não tinha a minha. O que eu sei é o efeito: depois daquela noite, eu fiquei menos vulnerável à ideia de que amor é prova de exclusividade e mais atento à ideia de que amor verdadeiro, especialmente o amor que se parece com o amor de pai, aumenta a liberdade de quem recebe.
“Revisitando alguns conceitos da Teoria do Apego” (Psicologia: Teoria e Pesquisa, SciELO, em português, com explicação de “base segura”). (https://www.scielo.br/j/ptp/a/bJfD5DCX8sNR96BMxb7dBVJ/?format=pdf&lang=pt)